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19.10.2009 - 20:57
Festival do Rio: entrevista com o diretor Jon Blair e o produtor Tom Phillips

Entrevista com o diretor Jon Blair, ganhador do Oscar de melhor documentário em 1996 com o filme Anne Frank Remenbered, que veio ao Brasil lançar seu último doc, 'Dancing With The Devil"

Por José Messias e Rod Carvalho



Um repórter inglês escrevendo uma matéria sobre religião no Brasil e um diretor sul-africano, radicado na Inglaterra, afeito a temas controversos e com um Oscar na bagagem. De um encontro aparentemente casual nasce um projeto ambicioso: documentar a realidade de uma favela carioca e como violência e religião cumprem papéis fundamentais na vida dos moradores. O resultado dessa parceria, o longa “Dançando com o Diabo” (Dancing with the Devil ou ainda Dancing with the Devil in the City of God, como é conhecido no Reino Unido), é um retrato minucioso da vida de três homens de funções diferentes (e muitas vezes conflitantes) que representam muito bem os contrastes presentes na cidade do Rio de Janeiro.

O jornalista se chama Tom Philips. Correspondente internacional do jornal britânico The Guardian, ele cobre assuntos relacionados ao Brasil desde 2005. Por sua vez, Jon Blair é um documentarista com quase 30 anos de carreira que além do Oscar, em 1996, já conquistou o Bafta e o Emmy. Reunindo o melhor de suas respectivas áreas, os dois levaram às telas uma produção que trabalha o compromisso de busca da verdade do Jornalismo – o que muitas vezes se transforma em algo maçante e/ou burocrático num documentário –, sem perder aquele fascínio mágico do cinema, responsável por prender a atenção do espectador.

Segundo Blair, “a idéia era trazer o visual, o áudio e os valores estruturais de uma ficção para o documentário. Ele sempre foi pensado com um documentário para a tela grande e não para a pequena. Não queríamos disfarçá-lo como um documentário, mas fazê-lo como se fosse ficção. A diferença é que cada um desses ‘personagens’ é real”. Dentre eles, se destacam o policial civil Torres, o pastor Dione e o traficante Aranha, morto em março deste ano. De maneira geral, o documentário segue as ações (e embates) desses indivíduos – os três que aparecem no pôster do filme – no Complexo da Coréia, em Senador Camará.

Também chama a atenção o fato dos realizadores terem escolhido esta favela localizada num bairro pobre da Zona Oeste, ao invés dos “preferidos” da grande mídia como Rocinha, Pavão Pavãozinho ou Chapéu Mangueira, na Zona Sul. “Tentamos colocar uma luz numa parte do mundo (e da cidade) que muita gente não vê. As pessoas só sabem o que elas vêem no jornal ou na televisão, se é que algo é mostrado, mas não têm idéia de como é lá de verdade, tridimensionalmente”, diz Blair.

Esse já pode ser considerado um dos grandes atrativos do documentário em relação a outros já feitos. Afinal, “Dançando com o diabo” começa com a suposta “desvantagem” de ser a visão de dois estrangeiros sobre o Brasil. “Confesso que antes de filmar o único documentário que tinha visto sobre o tema foi ‘Ônibus 174’, de José Padilha. Eu havia assistido mais mesmo ficção, ‘Cidade de Deus’, ‘Tropa de Elite’ e ‘Central do Brasil’, embora esse último não seja especificamente desse gênero. E só depois de ter filmado eu pude ver ‘Notícias de uma guerra particular’, de João Moreira Salles”, conta Blair. E fazendo uma rápida comparação entre o seu trabalho e do brasileiro, diretor sul-africano chega a seguinte conclusão. “Sou um grande admirador do trabalho de Moreira Salles, mas todos os rostos estão cobertos em seu filme. Entendo que ele precisou fazer isso, mas o problema é que isso acaba desumanizando as pessoas. Quando você retrata as pessoas sem aquelas tarjas ou qualquer outro tipo de cobertura, você consegue ter uma visão todo, sem transformá-la em boas ou ruins. Dessa forma, espero que quem estiver assistindo ao filme pense, ‘essa é a primeira vez que esse mundo foi retratado dessa forma’”, acrescenta.

 

De cara limpa

 

Para o diretor, o que lhe deixa mais satisfeito com relação a seu trabalho nesta produção é a honestidade com que ele e Tom Phillips trataram os envolvidos. “Eu lhes disse de ‘cara limpa’, ‘não pretendo mentir e não vou transformá-los em santos. Irei mostrar seu mundo de um jeito que compreendam e se reconheçam. E sinceramente, não acho que alguém tenha feito isso antes’”, destaca Blair, antes de contar que mostrou o resultado a seus personagens. “Todos puderam escolher se seus rostos apareceriam ou não. E foi só porque eles acreditaram na minha honestidade que muitos deles deixaram que eu os colocasse tela. Claro que eu poderia estar mentido só para conseguir o que queria, porém fiz questão de que Tom levasse o filme para eles. Todos os ‘personagens principais’ viram o filme, de traficantes a policiais, e todos disseram que foram retratados com fidelidade. Se fosse algo sensacionalista, nós não teríamos tido essa resposta das pessoas”, completa.

Certamente essa não foi uma tarefa tão fácil quanto Blair conta. Essa honestidade que ele enfatiza só foi possível graças ao trabalho prévio de Tom Phillips. “As filmagens aconteceram num período de tempo relativamente curto, no entanto tudo isso só foi possível devido a minha presença na Coréia por cerca de dois anos antes disso. Desde o primeiro dia quando fui à favela me apresentei como jornalista e disse que queria fazer uma matéria sobre a igreja – a reportagem que deu origem ao documentário – e nesse mesmo dia acabei conhecendo o Aranha. Eles perceberam que nós (Phillips e seu colega Douglas) não éramos dois sensacionalistas que queriam fazer uma matéria bombástica e depois ‘dar tchau’. Assim, nós continuamos indo até o complexo, às vezes nem tinha matéria envolvida só ficávamos por lá conversando. Foi assim que ganhamos credibilidade“, conta Phillips, co-produtor do longa.

De acordo com Blair, o nível de acesso de Phillips também se manifesta ao longo do documentário. Esse relacionamento transparente entre realizadores e envolvidos cria uma atmosfera diferenciada em torno de “Dançando com o Diabo”. “Assim como uma pessoa olha nos olhos da outra e consegue sentir o que ela está pensando, o público vai poder olhar direto nos olhos das pessoas no filme e decidir se o mundo que elas estão nos mostrando faz sentido e vão saber quem essas pessoas são de verdade e o que acontece onde elas moram. O traficante Tola, por exemplo, é como um personagem de Shakespeare, muito trágico e cheio de falhas e ainda assim fascinante. Você consegue vê-lo por completo no filme”.

Autor : José Messias
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